Barbearia do Ju • Química e cuidado

Química no cabelo masculino: o que eu avalio antes de aceitar

Publicado em 16 de agosto de 2026 • Revisado em 16 de agosto de 2026

Este é o artigo que eu escrevo com as duas formações ao mesmo tempo. Química capilar é a área da barbearia com mais margem para dar errado — e também a que tem mais informação errada circulando, inclusive entre profissionais. Vou direto ao que a regulação brasileira diz e ao que eu checo antes de encostar um produto na cabeça de alguém.

Atendimento na Barbearia do Ju, em Bragança Paulista

O que a ANVISA proíbe como alisante

Em julho de 2025, a ANVISA publicou o Informe de Segurança GGMON nº 03/2025, de cosmetovigilância, sobre alisantes capilares irregulares. Dois pontos merecem estar em qualquer barbearia:

1. Formol (formaldeído) não é proibido em cosmético — é proibido como alisante. Ele é permitido como conservante em até 0,2% e como endurecedor de unhas em até 5%. Na concentração permitida como conservante, ele simplesmente não tem capacidade de alisar. Então quando um produto "alisa por causa do formol", ou ele está acima do limite, ou a promessa é falsa. Não existe terceira opção.

2. Ácido glioxílico também está na lista de não permitidos para alisamento. Este é o ponto que mais surpreende quem trabalha com cabelo: por anos ele foi vendido como "a alternativa segura ao formol", e o informe de 2025 o lista lado a lado com o formaldeído entre as substâncias não permitidas para essa finalidade.

O que é permitido

Segundo o mesmo informe, os alisantes permitidos são: ácido tioglicólico e seus sais, ésteres do ácido tioglicólico, hidróxidos de sódio, potássio, lítio ou cálcio, sulfitos e bissulfitos inorgânicos, pirogalol e ácido tiolático — cada um com suas condições e limites de uso.

Os riscos citados para os irregulares não são teóricos: irritações, queimaduras no couro cabeludo, problemas respiratórios, potencial cancerígeno e danos ao próprio cabelo — quebra, ressecamento e frizz.

Como você pode conferir, sem ser químico

Você não precisa saber ler uma ficha técnica. Precisa saber pedir para ver a embalagem. Sinais de que está tudo certo:

Sinais de alerta: produto fracionado em galão sem rótulo, frasco sem identificação, cheiro forte que arde nos olhos e faz lacrimejar, ou a frase "é um produto meu, da minha fórmula". Fórmula própria sem registro é produto irregular, por mais bem-intencionado que seja quem manipulou.

O que eu avalio antes, na cadeira

1. Histórico do fio

Química sobre química é o que mais quebra cabelo. Preciso saber o que já foi feito e quando — descoloração, tintura, alisamento, relaxamento. Se você não lembra, o fio lembra: dá para ver no teste.

2. Condição do couro cabeludo

Ferida, arranhão de barbeador, descamação intensa ou irritação ativa mudam completamente a absorção e o risco. Couro cabeludo com lesão não recebe química naquele dia — não é excesso de zelo, é a diferença entre um serviço e uma queimadura.

3. Teste de mecha e teste de elasticidade

O teste de mecha mostra como o fio responde ao produto. O teste de elasticidade mostra se ele ainda tem estrutura: cabelo que estica muito quando molhado e não volta está com o córtex comprometido. Esse é o mesmo mecanismo que explico em detalhe no artigo sobre platinado masculino — a oxidação converte pontes dissulfeto em ácido cisteico, e isso não volta.

4. Histórico de alergia

Se você já reagiu a tintura de cabelo, henna preta ou coloração, isso muda a conduta. Corantes de oxidação são causa frequente de dermatite alérgica de contato — assunto que detalhei em pigmentação de barba.

Por que às vezes a resposta é não

Já recusei serviço com o cliente sentado e o horário pago. Não é para parecer criterioso: é que dano químico em cabelo custa meses de convivência com um problema, e ninguém sai feliz de uma barbearia com o couro cabeludo queimado. Prefiro perder um atendimento a entregar isso.

Quando o cabelo não está em condição, o caminho costuma ser hidratação e reconstrução primeiro, e a química depois — em outra data, com o fio em estado melhor.

Onde isso deixa de ser assunto meu

Queda de cabelo, descamação persistente, feridas que não cicatrizam, coceira intensa e crônica: nada disso se resolve na cadeira do barbeiro. Sou farmacêutico e sei ler um rótulo — mas diagnóstico é do dermatologista, e mandar você para lá é parte do meu trabalho, não uma falha dele.

Perguntas frequentes

Formol é proibido em cosméticos no Brasil?

Não em qualquer uso: é permitido como conservante em até 0,2% e como endurecedor de unhas em até 5%. O que é proibido é usá-lo como alisante capilar. Na concentração permitida como conservante, ele não alisa.

Ácido glioxílico é uma alternativa segura ao formol?

Não. No Informe de Segurança GGMON nº 03/2025, a ANVISA lista o ácido glioxílico junto do formaldeído entre as substâncias não permitidas para alisamento.

Quais alisantes são permitidos?

Ácido tioglicólico e seus sais, ésteres do ácido tioglicólico, hidróxidos de sódio, potássio, lítio ou cálcio, sulfitos e bissulfitos inorgânicos, pirogalol e ácido tiolático — cada um com suas condições de uso.

Como saber se o produto do salão é regularizado?

Peça para ver a embalagem: rótulo em português, fabricante identificado, lote, validade e registro ou notificação na ANVISA. Galão sem rótulo, produto fracionado ou cheiro que arde nos olhos são sinais de alerta.

Referências

Referências localizadas via PubMed e nos canais oficiais da ANVISA. Este texto é informativo e não substitui avaliação médica.

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